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Gesto, Olhar e Sorriso

Palavras que têm vida.

15
Jun17

As asas que me fazem voar (11)

Carolina Cruz

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Pensava nisto, enquanto dormia no seu peito. Pensava também para comigo que o tempo haveria de se encarregar de trazer o que era certo para ambos, de dar espaço e confiança suficiente para nos abrirmos um à outro, sem medos ou rodeios, só tinha de mostrar a minha perseverança em permanecer ao seu lado, acontecesse o que acontecesse.
O que não imaginaria é que ao me levantar para tomar o pequeno-almoço descansada, enquanto Jack dormia, Jade lá estivesse à minha espera, para falar comigo. Não trazia um ar de loucura, nem de raiva, apostava num ar sereno e sentou-se na minha mesa sem tão-pouco eu ter dado autorização para que o fizesse.
- Miúda. – insurgiu-se ela. – ele vai-te magoar. Não sei qual foi a cantilena desta vez, mas não penses que lá por estudares música que será diferente ou que ele te acha original. Esquece! Ele arranja sempre algo em comum com as miúdas, mesmo que não tenha.
O seu ar era sincero, contou-me a sua história com ele, relatou-me quase todos os factos que ele não me dissera e deu-me a conhecer um Jack que eu pensava que nunca iria conhecer, um Jack mentiroso, sujo, demasiado impuro, um verdadeiro bardamerda.
Talvez não o devia ter feito, mas reagi a quente, fiz as minhas malas e disse-lhe para não me dirigir mais a palavra, eu não tinha nascido para ser mais uma, um divertimento ou uma noite bem passada, e… como tinha sido boa a noite anterior…
Jack ainda disse «mas Katie…» e eu não quis ouvir, bati a porta e vim-me embora.
Segui para Bragança de olhos vidrados e o coração estilhaçado em pequenos pedacinhos de nada e de tudo… tudo aquilo que desejara, tinha caído por terra, eu não seria mais a mesma…

(continua...)
 

 

14
Jun17

As asas que me fazem voar (10)

Carolina Cruz

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Pela primeira vez senti desconfiança, ciúmes. No entanto, quando entrei no camarim para o abraçar e nos perdemos nas gargalhadas e nos braços um do outro, quem fez uma cena de ciúmes foi Jade, dizendo entre dentes:
- Sol de pouca dura, como sempre.
Não consegui conter-me e quando seguimos juntos para o hotel questionei-o, mas ele omitiu-me tudo com quantas pedras poderia ter na mão. Omitiu-me, será que me mentiria também? Que esconderia ele? Porque lhe doía tanto que eu o questionasse?
- Posso apenas aproveitar que estamos juntos, para falarmos de outra coisa? – disse, com os olhos vidrados, apaixonados, consegui senti-lo.
Deixei-me levar. O seu corpo, as suas mãos sobre mim, sobre o meu corpo. Quando eu dizia que ambos tínhamos vidas separadas, era verdade, mas nunca estiveram tão ligadas como naquele dia. Éramos certos, perfeitos um no outro, sobre o prazer, que era muito mais que isso.
No entanto, embora eu não lhe pressionasse para falar sobre o seu passado e ele sobre o meu, o dele intrigava-me imenso, como podia eu tirar essa ideia da minha cabeça sem lhe dizer?

(continua...)

 

 
13
Jun17

As asas que me fazem voar (9)

Carolina Cruz

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Eu estava em dúvida, em constante dúvida, não sabia o que queria. No entanto, fui a Coimbra sem lhe dizer, fiz-lhe uma surpresa, mantive o meu lugar sereno como uma simples fã e aproveitei o concerto de forma tranquila. Mandei-lhe uma mensagem antes do concerto: “Vou estar na primeira fila” e ele não acreditara.
O concerto como todos os outros fora perfeito, a sonoridade das vozes tornava tudo excecional. No entanto, naquele dia, ao olhar com outros olhos, sim, pode-se dizer “olhos de amor”, eu consegui decifrar que Jade, a rapariga que o acompanhava, o olhava de outra forma, havia dor no seu olhar, como que a pedir clemência, amor e ao mesmo tempo vingança e atenção, quem seria ela? Ou que história teriam eles?

(continua...)

12
Jun17

As asas que me fazem voar (8)

Carolina Cruz

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O sol nascera, a madrugada terminara, ele tinha de partir e eu também.
- Vem comigo, vou estar em Coimbra na próxima semana!
Abanei a cabeça, ia começar o meu estágio dali a uma semana. Não podia fazer noitadas. Tinha de me concentrar ou chumbava e perdia tudo aquilo que sonhara ser.
Ele assentiu e não ficou bravo, não me prendeu. O que tínhamos era especial, mas não, de todo, sério. Eu tinha a minha vida, ele tinha a dele, iriamo-nos voltar a encontrar, até porque nenhum de nós ficou indiferente e os nossos números estavam gravados na agenda um do outro, os nossos sorrisos no coração.

(continua...)

11
Jun17

As asas que me fazem voar (7)

Carolina Cruz

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Ele não deixou que eu respondesse, pegou na minha mão e fez com que eu não tivesse opção de escolha.
Atracámos no porto e as suas palavras eram mágicas, porém eu continuava sem querer quebrar o gelo.
- Por mais que possas pensar, isto nunca aconteceu comigo.
- O quê?
- Apaixonar-me perdidamente.
O meu coração martelou desalmado para fora do peito.
- Não foi quando disseste as primeiras palavras ou desde o primeiro momento que eu me apaixonei por ti, foi quando percebi que eras diferente de todas as outras.
» Há milhares de raparigas, todas as iguais, diferentes, sexys, bonitas como tu, que não entendem que somos pessoas normais como elas, que somos humanos, que erramos, que defecamos, que também cheiramos mal, elas só conseguem olhar para mim como um ser que domina, que é conhecido, bonito.
» Tu não, tu olhaste para mim por dentro, foste à minha alma, àquilo que chamas de meu talento, tens conversas interessantes, és inteligente, e não te inibes ou me seduzes de forma interesseira, por ser quem sou.
Era impossível não olhar para a nossa diferença de idades, eu tinha 22 anos, ele 33 anos, mas que me importava isso se nas conversas tudo parecia coincidir na perfeição?
Terminou as suas palavras com um beijo longo e eu cedi. Como resistir à verdade? Eu também estava apaixonada. Não sabia o seu passado, mas sabia que ele estava ali à minha frente, nem as suas palavras nem o seu olhar me mentiam, eu só queria aproveitar o momento.

(continua...)

10
Jun17

As asas que me fazem voar (6)

Carolina Cruz

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- Eish, esta música… - dizia ele.
E a conversa desenrolava-se alegremente. Jay era alguém bastante fácil de se falar sobre música. Tinha tirado o mesmo curso que eu há mais de dez anos, pois era praticamente a diferença que fazíamos um do outro.
A Guida só se ria. Embora minha amiga, ela não tinha grande conhecimento musical a não ser por insistência minha.
Confesso que não a inserimos na conversa, porque segundo ela, nada mais existia além de nós e a música.
- Take on meeee! – cantava ele.
Ele não se importava de quem era ou se as pessoas o olhavam ou se iam chateá-lo, o que felizmente não o fizeram com frequência.
A certa altura, a Guida levantou-se na mesa.
- Katie, vou-me embora para o hostel. Importaste?
- Sabes ir sozinha?
- Queres que te leve? – perguntou Jay
- Não, é já aqui a cima… Lembraste?
- Pois é. Quando chegares diz.
- Sim, diz. – disse ele.
Guida deixou-nos sozinhos. Quando chegou ao hostel, disse ter chegado bem e eu fiquei descansada.
Voltámos à conversa. Eu não o conhecia, não sabia como é que ele era como pessoa, mas sabia-me tão bem estar à conversa com ele.
Falámos sobre os meus dotes para tocar violoncelo.
- Tens de me mostrar isso! – disse ele sorrindo, pronto para encostar o seu rosto ao meu, como quem procura um beijo.
Momento esse interrompido pelo empregado do bar. Parte de mim agradeceu.
- Desculpe, mas vamos ter de fechar.
Eram 4h da manhã e a noite ainda era cerrada.
- Vamos ver o luar sobre o Tejo? – perguntou-me.
Fiquei perplexa, o que haveria eu de responder?

(continua...)

 

 
09
Jun17

As asas que me fazem voar (5)

Carolina Cruz

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A fila de fãs era enorme. Era curioso observá-la, quase conseguia fazer uma investigação melhor que qualquer um daqueles estudos que espremido não se retira conteúdo nenhum. Eram, na sua maioria, jovens entre os dezoito e os vinte e pouco anos, que aparentemente pareciam dar mais valor àquele momento pós concerto que a música em si. Umas mostravam-se histéricas, outras engasgavam-se, riam-se, coravam, sem saber bem o que dizer. Não podiam rir-me, fiz a mesma coisa na primeira vez que tivera com ele.
Os rapazes que apareciam eram mais velhos e agradava-me ouvi-los falar, porque interessavam-se pela música que ele criava, tiravam dúvidas e falavam no seu talento!
Eu pensava em tudo para não desesperar, ao mesmo tempo que trocava mensagens com a Guida.
«Ele só pode estar a gozar comigo.» - disse-lhe.
«Está, está! Está é aguardar-te como quem chora de saudade!» - disse ela a gozar comigo.
Eram duas da manhã. A fila tinha chegado ao fim. Os seus olhos castanhos gigantes e tão bonitos vinham na minha direção.
- Desculpa.
Estava cansada, esgotada de esperar e pareceu-me no momento, pelo tom da minha voz que lhe respondera mal. Ele não tinha culpa, eu é que tinha esperado, ele também não me tinha obrigado a fazê-lo, esperei porque quis.
- O que queres saber sobre o meu curso?
Ele sorriu perante o meu mau humor.
- Não disseste que estudavas música?
- Sim… - respondi reticente.
- Eu quero saber mais sobre ti, não apenas de música. – disse-me puxando singelamente o meu cabelo para trás das orelha.
Não tinha grande jeito para conversa de engate, mas ao mesmo tempo conquistava. Não sei se tentava ter aquela conversa com todas as miúdas, se era um músico tímido que apenas sonhava com a tal.
- Senta-te. – disse.
- Meu, temos de abandonar. Vamos para o hotel. – disse um dos rapazes que o acompanhavam.
- João. Vou lá ter.
»Tomamos um café? – Perguntou.
Ele não estava em si. Café? Onde? Tinha a Guida à minha espera. Não conhecia Lisboa. Ele não se sentia importado com a multidão?
Questionei-lhe, não sobre tudo isso, mas parcialmente!
- Não importa nada disso. – Disse abraçando a minha cintura com a sua mão.
Teste? Força da razão? Vontade de algo mais? Retirei-a. E ele nada disse, sorriu. Ele era uma mistura de timidez com vontade, sensualidade com nervosismo.
Acabei por dizer à Guida para nos acompanhar, embora tenha reparado que não era vontade dele que eu a convidasse, no entanto não ia abandonar a minha amiga e como me mostrara desconfiada decidi levá-la, se é que me faço entender.
Eu nunca fui cética em relação ao amor, por isso já tinha sofrido demasiado e eu sabia que o folgo do meu coração pedia a sua mão na minha cintura como ele fizera nesse dia, mas eu não podia sofrer mais… E então lá seguimos os três para uma velha taberna com música dos anos 80.

(continua...)

08
Jun17

As asas que me fazem voar (4)

Carolina Cruz

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Lisboa.
O meu terceiro concerto e um toque especial.
O concerto foi perfeito. Ele trazia consigo uma rapariga para cantar em dueto as melodias mais românticas.
Ele tinha um talento indiscutível, era o exemplo de músico de que se devia falar nas aulas. Chamem-me exagerada, mas eu colocava-o no mesmo patamar de Eddie Vedder e outros cantores míticos e conceituados.
Falei-lhe disso nesse dia e ele achou claramente um exagero, mas agradeceu-me o elogio pousando a sua mão sobre a minha. Acto esse que fora observado de lado.
Antes disso (já volto àquele momento) passei de novo à frente de todas as suas fãs. Ele ainda se lembrava do meu nome, viu-me na fila e mandou-me chamar.
Por mais que possam pensar não me senti importante, nada disso. Por vezes até era contra a forma como ele lidava com as fãs. Não era mal educado, mas por vezes tornava-se um pouco altivo, menos terra-a-terra. Mas isso era um comportamento de defesa, que vim a descobrir-lhe meses mais tarde.
Quando cheguei ao pé dele, apercebi-me de que estava nervosa, mas tentei sorrir da forma mais natural possível. Ele abraçou-me e sorriu.
- Espera um pouco. Vou querer saber mais sobre esse teu curso, não te vás embora.
Foi dar autógrafos e eu fiquei ali sozinha. Mandei mensagem à Guida, que do lado de fora do camarim se encontrava mais histérica do que eu. Eu, na minha paz, aguardava-o.
Que quereria ele conversar comigo?

(continua...)

07
Jun17

As asas que me fazem voar (3)

Carolina Cruz

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- Gosto muito do seu trabalho – consegui por fim dizer.
- Obrigado. – disse ele, de forma descontraída.
Guida, uma das amigas que me acompanhava quis tirar uma fotografia.
- Anda! – disse ela.
Eu recusei, timidamente, e ele puxou simpaticamente para a fotografia.
- Anda daí!
E tirámos.
Eu não me preocupava muito em tirar fotografias, nunca fui muito disso, acho que as boas memórias ficam sempre gravadas na nossa memória. Parece que, com as fotografias, somos constantemente obrigados a lembrar esses momentos sem um menor esforço. Além disso, eu gostava do seu trabalho, não do seu aspeto ou beleza, que na verdade, chamava a atenção.
Apetecia-me apenas estar ali, não para o ver simplesmente, mas poder absorver um pouco do seu talento, da felicidade que ele transmitia no amor que tinha pela música.
Fiz-lhe algumas perguntas sobre música e reparei que, notoriamente, ele estava a sentir-se apelado à conversa. Falava com um sorriso grande nos lábios e parecia que a fila interminável de fãs podia esperar. Mas, infelizmente, não podia. E fiquei com vontade de voltar e ele de me presenciar de novo para aqueles assuntos em nada fúteis que raramente recebia.
Sorriu de novo e disse-me – Gostei muito. Quero voltar a ver-te!
Eu sorri, envergonhada, e notei no rosto das restantes raparigas da fila que quase me podiam comer viva de inveja, mas porquê? O que havia de tanto alarido na sua pessoa? Que além de fazer o seu trabalho, é uma pessoa normal? Que erra, sorri, sente, chora, murmura e também sonha?
Eu conseguia vê-lo com a sua alma completa e foi isso que me destacou.
Dias mais tarde voltamo-nos a ver.

(continua...)

06
Jun17

As asas que me fazem voar (2)

Carolina Cruz

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Chamo-me Katie, tenho 29 anos, vivo em Bragança. Bem, vivia, antes de a minha vida mudar com essa canção de que vos falei.
Continuam a perguntar-se que música ou porquê, não é?

Tinha 24 anos quando tudo começou, quando o conheci.
Ele, Jack, era um cantor bastante conceituado e eu era apenas e só mais uma fã.
Naquele ano, a sua tour era longa e de cerca de cem concertos, sou capaz de ter ido a mais de metade.
Não me chamem de louca. Não era daquelas fãs histéricas ou possessivas, mas sendo eu estudante de música, o seu talento fascinava-me. E a sua música fazia-me bem.
Conheci a sua primeira canção quando terminei a minha relação com Miguel, o meu ex-namorado.
Eu tinha as lágrimas a correrem-me pelo rosto quando a ouvi pela primeira vez. E ela tocou-me.
Sabem quando há canções que foram feitas para vos compreenderem? Esta parecia ouvir a minha alma. Instintivamente apaixonei-me pela sua voz.
Foi a ela que me agarrei todos os dias após aquele findar, aquela desilusão.
Pesquisei-a na internet e cheguei até ele.
Jack Say. O seu nome artístico.
Fiquei com curiosidade, com vontade de o conhecer melhor. Tal como eu, tinha iniciado a sua paixão pela música no ensino médio e seguido o curso de música na faculdade. No caso dele já lá iam alguns anos.
Comprei o seu cd e aguardei uma data de um concerto perto da minha zona, mas infelizmente ela nunca surgiu e fui obrigada a mexer-me, não podia esperar mais, queria vê-lo ao vivo. De certa forma queria agradecer-lhe por melhorar a minha vida e parabeniza-lo pelo seu talento.
Porto, 23 de junho de 2004.
As minhas primeiras palavras, engasgadas, com sorrisos envergonhados.

(continua...)
 
 

 

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