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Gesto, Olhar e Sorriso

Palavras que têm vida.

28
Mar17

[Ficção] Eu nunca perdoaria?

Carolina Cruz

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«Estou aqui, abre a porta.»
O meu coração batia com força. Ele estava ali à minha frente. Sem rosas ou chocolates, apenas com desculpas, com vontades, com mil perdões. Os seus olhos azuis imploravam perdão e o seu sorriso era encantador. Como podia um rapaz ter tanto de mim na sua alma?
Ele dizia ter sido um idiota, que não havia mulher que mais amasse, por mais que desse a volto ao mundo não haveria rapariga mais bonita, mais especial, que eu era perfeita para ele. As paixões que tivera não se igualaram à minha presença, à marca que deixara no seu coração, porque eu não era banal como as outras, não me deixava ir tão facilmente, era forte e não mais uma. Eu era a tal.
Pedia desculpa por só agora ter visto tudo isso, que não merecia uma segunda oportunidade, que era uma besta. As suas lágrimas corriam pelo rosto, ainda que não quisesse chorar. O seu sorriso envergonhado fez-me abraçá-lo.
É estúpido quando não estando na situação dizemos “eu nunca perdoaria”, talvez tenha dito também, mas há perdões feitos que valem a pena toda a vida, apercebi-me disso naquele dia. Tudo o que ele tinha dito, tudo o que tinha feito, naquela hora não me importava, as suas lágrimas diziam tudo, falavam sobre si, sobre nós, sobre o amor intenso que sempre houvera entre nós.
Aquele abraço durou o tempo suficiente para ambos chorarmos, para curar e colar todos os pedacinhos partidos, chorar e sorrir, beijar muito, abraçarmo-nos de novo e entrelaçámos as mãos para toda a vida.
Por vezes precisamos de abrir os olhos e ver que, num instante, podemos perder o amor da nossa vida, ele percebeu que eu era o dele, pois não houve mais ninguém na sua vida até então.
 
 

 

 

 
 

 

16
Nov16

[Completas-me] Com a RP

Carolina Cruz

Hoje o "Completas-me" está de volta! Finalmente! - devem dizer vocês. É verdade, mas como disse no facebook, eu não gosto de fazer as coisas à pressa, mas sim dedicar-me de todo o coração àquilo que abraço. E esta rúbrica, como todas as outras, merece a minha perfeição, e como ela não existe, eu procuro dar o meu melhor. 
Hoje trago-vos a minha querida e simpática RP para um texto sobre quebra de monotonia e mudanças. E é engraçado que esta história fez-me sonhar que estava num avião com ela, não é curioso? :D

Vamos ler? Espero que gostem desta história escrita a duas mãos!

 

"Agora que o avião colocou as rodas no chão é que caí em mim. O meu estômago embrulha-se, tal é a minha ansiedade. Constato, agora que estou mais lúcida, que pouco me falta para ter um ataque de pânico. Mas onde é que estava com a cabeça? Como fui capaz de largar toda uma vida? Uma bagagem? Os amigos? A família? Os meus pais choraram tanto. Disseram que todos temos segundas oportunidades. Que fugir não é solução, nunca é! Não concordo. Acho que a pior das hipóteses era ficar. Voltar aos mesmos lugares, ver as mesmas pessoas. A cabeça quente achei que sair do país era o ideal. Mas não para a Europa já com um emprego e uma casa garantidos para os tempos de adaptação. Conheceria alguém. Isso resultaria em familiaridade, em questões, em voltar ao mesmo. Não queria isso. Tudo menos isso... Talvez o meu pânico se deva a sair da zona de conforto. Ao facto de não conhecer ninguém a quem recorrer, a não conhecer o lugar. Ou a ambos. Que raios! Lancei-me de cabeça. Nem sequer o idioma sei. Não tenho emprego. E se não arranjar? Não tenho conta bancária para uma estadia demasiado longa.   As portas do avião abriram. Nem sequer sei onde é a saída do aeroporto. Sigo a multidão. Faço neste momento parte do rebanho. Eu que sempre fui contra isso, que sempre me revoltei com as imposições. Aliás agora que penso nisso lembro-me das pessoas que tanto dececionei. Os meus pais que sempre batalharam para me darem uma vida estável. E cujas regras sempre me obstinei a cumprir. Os meus amigos que sempre me deram um apoio e conselhos e eu largo-os. O meu cão, até ele que tanto gosto dececionei ao não o trazer comigo. Todas as relações falhadas que tive. Não culpo nenhum deles. Culpo a minha pessoa, a insatisfação crónica, o só querer estar onde não estou... Eu fui a pessoa mais dececionante que lhes poderia passar na vida. E nenhum deles merece. Estão táxis à porta. Rabisco o nome do centro da cidade e mostro ao taxista que acena com a cabeça como quem diz que entendeu. Olho pela janela e reparo em como tudo é tão novo, o que me entusiasma, e tão estranho, o que me aterroriza ainda mais. O taxista deve ter reparado na minha cara porque o ouço a dizer com um sorriso encorajador: "No worries miss. It's safe!" Deve pensar que o facto de já terem sido alvos de terrorismo me amedronta. Como se isso não acontecesse cada vez mais na Europa. Olho para ele e devolvo o sorriso. Tenho mais medo da minha pessoa para ser sincera. Deixa-me no centro, pago e agradeço com a melhor pronúncia que consigo arranjar. Olho à minha volta. Toda a gente passa, todos se conhecem, todos parecem seguros para onde vão, todos estão no seu mundo, ninguém repara em mim. A pergunta que me assola é: "E agora? Para onde?".

 

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Sinto-me perdida, mas já que tomei esta decisão, não posso tornar-me mais cruel comigo mesma. Sei que ainda guardo os últimos tostões e se conseguir ainda me dão para alguns dias, mas não muitos. Trago a guitarra comigo. Faz tanto frio, estou encasacada como uma esquimó. Pareço uma idiota. Decerto haverá por aqui pousadas baratas. “Caramba” – penso – “Nova Iorque é um mundo e eu sou uma formiga em cada rua que passo”. Estou enganada, aqui ninguém se conhece, como vou eu conhecer alguém? Merda. Todos os pequenos seres são formigas que olham para o seu umbigo. Ainda agora cheguei e sinto-me impaciente, não quero isto, mas também não quero ceder aos meus medos. Creio que também eu olhei apenas pelo meu umbigo, e quando julgava que perdia o mundo, por perdê-lo a ele, por estupidez minha, perdi na verdade todos os que tinha à minha volta. Como voltar atrás? Como fazer diferente?
Agora não posso, e para me deixar de consciência tranquila vou fazer o melhor por mim. Se a vida me desse uma segunda oportunidade para amar eu seria a pessoa mais recompensada do mundo e então todos os meus fantasmas partiriam, mas a vida não é como nos filmes.
No exato momento em que pensava nisto, um rosto simpático mergulhado na penumbra veio falar-me… A sua mão pousara no meu ombro.
Com um português misturado num inglês dito a medo, perguntou-me onde podia jantar em conta, sem que precisasse de pagar muito.
Soltei uma gargalhada, não que tivesse piada, mas por instantes não me senti só.
- Eu falo português. – Disse eu depois de parar de rir.
- Uff. – Disse ele soltando um suspiro simpático, acabando por sorrir. – David. – Disse-me, apresentando e estendendo a mão ao mesmo tempo que me oferecia de novo um sorriso. Tinha uns olhos verdes quase da cor de lima e um olhar sonhador.
- Sofia. – Disse, retribuindo o aperto de mão.
Naquele instante em que ele me olhou, eu podia imaginar que tinha acreditado no amor à primeira vista e que o meu coração voltou a sonhar, mas não quis levantar falso alarme. Sim, estava cansada de falsos alarmes, de trair os outros como fiz com ele e comigo também.
- Felizmente não estou sozinha nisto. – Acabei por dizer.
- Quer ir a algum lado? Vamos procurar juntos algum lugar para jantar?
- Se me tratar por tu. Devemos ter a mesma idade.
Curiosamente tínhamos, a mesma idade, os meus gostos, as mesmas vontades, por incrível que pareça – os mesmos escapes.
Dividimos o maço de cigarros que ainda me restava e conversámos sobre tantas e variadas coisas pela noite fora, que parecia que o conhecia há mais de mil anos.
Ele tinha chegado há uns dois dias e andava tão perdido quanto eu, vinha de uma viagem pela Europa, em busca de mudança, vinha com intenções de mudar de vida e gastar pouco, aprender com o mundo, tal como eu fugia à monotonia, mas não me dissera quaisquer razões para a quebrar. O tempo encarregar-se-ia de mo dizer. Eu apenas desejava esse tempo para o conhecer melhor.
- O que pretendes? Ficar?
- Se tiver motivos. Porque não?
Por momentos, na minha inocência parva, sempre a chamar o coração, tive vontade de ser eu esse motivo, mas fantasia-lo, era, por si só, ridículo. Desde que partira naquele avião sentia-me uma louca à deriva, mas encontrar David foi, na verdade, o melhor que me podia ter acontecido.
Porque tempos mais tarde encontrámos razão um no outro para ficar, para ser, para estar. Ele concordou que eu devia fazer as pazes com o meu passado, pedir-me desculpa e depois fazer o mesmo com quem magoei.
Uma amizade verdadeira nasceu entre nós. Ele também era músico amador, mas juntos tomámos a música como opção, começando a tocar juntos nas ruelas, nas ruas mais movimentados, nos metros.
A primeira vez foi por brincadeira e, ao ver que fazíamos sucesso, a brincadeira tornou-se algo mais sério, um sonho, uma mudança no mundo, dos outros e do nosso.
Um ano mais tarde, fomos desafiados por uma discográfica, dividíamos um apartamento minúsculo sem nada haver entre nós, além da amizade profunda. Até ao dia, que o verdadeiro sonho de ambos se tornou real – o palco.
Aquele abraço na subida e no desejo de sorte, desenrolou-se no beijo mais especial de todos os tempos e, naquele momento e em todos os outros, em que a mudança foi a vitória da minha vida, eu agradeci ter partido, ter quebrado a minha tristeza, fugindo da rotina. Embora fugir nunca seja a solução, para mim foi a mudança. Hoje sou alguém bem resolvida com a minha pessoa, com quem sou, como o meu passado. E o meu presente? Com ele é especial, com a minha profissão, com o que somos, com o que temos – o mundo nas nossas mãos – e os seus dois dialetos universais – o amor e a música.

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(fotografia do filme "Walk the line")

22
Ago16

Agradeço à vida

Carolina Cruz

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Agradeço à vida por tudo, por todas as derrotas, por todas as desilusões, pois sem elas a minha alma não aprenderia a dar valor às pequenas coisas, às coisas realmente boas e felizes.
Agradeço à vida pelas suas segundas oportunidades, a mim, aos outros, dos outros para comigo, de mim para com os outros, pelos abraços apertados e tranquilos depois da alma limpa.
Se não houvesse o lado mau, não saberíamos dar valor ao que há de melhor na vida - o amor, a amizade - isso é que devia fazer girar o nosso mundo - o perdão, a sabedoria de saber quando agir ou quando não o devemos fazer.
Devemos explicar a razão da nossa desilusão e não deixar que ela nos mova, mas sim resolvê-la, se o melhor que temos a fazer é a distância, a vida irá recompensar todas as lutas, sobretudo aquelas que fazemos com a razão, quando agimos de coração.
Por isso descomplica, dá valor a quem te o dá de volta. Não percas tempo a lutar por alguém em vão, se te ignorar faz o mesmo, pois se estiveres errado ele notará a tua ausência, perguntará por ti.

25
Jun16

Uma segunda oportunidade

Carolina Cruz

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Há pessoas que pedem um tempo para mudar. Abraçam o tempo em que foram diferentes e esperam pelo momento certo para fazerem as pazes com o destino.
- Uma segunda oportunidade. - parecem dizer, mas o silêncio invade a sua vida.
Quem não perdoa, também não sabe dar valor às mudanças da vida, e às surpresas que tem o prazer de nos oferecer, é tão bom sentir que há algo em nós que segue em frente após julgarmos que existia uma sorte que não batia certo.
Há melhor coisa que a vida nos ensinar que viver é muito mais que estarmos vivos? As oportunidades surgem para serem feitas, os momentos servem para perdoar, quando tudo nos faz realmente pensar.
Não há pior coisa que não sentir, que vivermos com a raiva em nós ou com um sentimento de superioridade por algo ou alguém. 
Não vamos mentir, vamos agarrar o dia, para acreditar que muitas mais histórias poderão seguir connosco em busca de sonhos novas.
Sim, vamos ser felizes!

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